Lembro-me do dia em que meu diretor me deu uma lista de números de telefones, a fim de que eu entrasse em contato com alguns clientes potenciais e marcasse visitas para apresentar os produtos da empresa. Logo pensei: “Meu Deus, sou engenheiro. Não fui treinado para vender. E para piorar cresci ouvindo minha mãe alertando para não falar com estranhos”. Como eu poderia marcar uma visita com um estranho? Eu não tinha a mínima idéia do que e como falar com eles, mas consegui heroicamente algumas visitas.
Ao visitá-los descobri que estava completamente enganado quando achei que falar ao telefone com um estranho era a parte mais difícil da venda. Cada pessoa tinha um estilo próprio, uma postura diferente e uma maneira bem particular de se comunicar. Na maioria das vezes, ao sair da reunião, eu tive a sensação de ter visitado um lugar estranho, tido uma conversa estranha com uma pessoa estranha e feito uma venda muito estranha… Que mundo estranho!
Mais tarde aprendi que uma visita de vendas, assim como qualquer tipo de relação, é a construção de uma ponte entre duas pessoas, entre dois mundos, entre duas culturas. Eu sempre achava que todos deveriam cruzar a ponte e vir ao meu mundo, pois isso era normal, melhor e confortável. E tudo que era diferente do meu mundo seria estranho. No entanto eu nunca pensei que também era um estranho para meus clientes.
Então, resolvi compartilhar algumas opções para você parecer menos estranho da próxima vez que realizar uma visita de vendas, iniciar uma relação de amizade ou participar de alguma negociação. E como a melhor forma de se tornar menos estranho é se tornar mais semelhante e familiar ao próximo, seguem algumas dicas:
1- Espelhamento dos gestos – Segundo Albert Mehrabian, pioneiro da pesquisa da linguagem corporal, em toda comunicação interpessoal cerca de 7% da mensagem é verbal (somente palavras), 38% é vocal (incluindo tom de voz, inflexão e ritmo) e 55% é não-verbal. Segundo Birdswhistel, 65% da comunicação é feita de maneira não-verbal. Em resumo, sua postura, expressão facial, gestos e movimentos corporais falam mais do que suas palavras e voz.
Se você adota uma postura muito diferente da pessoa ou grupo com quem pretende se relacionar, você não será visto como alguém semelhante ou pertencente ao grupo. Então, nada mais natural do que adotar ou espelhar a postura de seu interlocutor de modo discreto, pois a idéia não é copiar os gestos, mas espelhá-los. Por exemplo, durante a conversação você pode acompanhar um cruzamento de braços com um cruzamento de mãos ou pés. Se ele colocar uma mão direita no bolso, você pode colocar sua mão esquerda em seu bolso.
Enfim, a idéia é acompanhar movimentação, direção e ritmo do outro de modo natural. Quando há empatia numa conversa, ambos espelham gestos e posturas uns dos outros naturalmente, ou seja, há sincronia gestual. Observe uma torcida vendo um jogo, casais dormindo, irmãos se comunicando e perceberá esse espelhamento natural. Atenção! Não só vendas são perdidas, como brigas, discussões, desentendimentos e violência são iniciados a partir de um problema de comunicação não-verbal.
2- Voz do cliente – Acompanhe o tom, ritmo, velocidade e volume de voz de seu cliente. Não tem nada mais desagradável do que um vendedor falar alto, rápido e com voz muito áspera com um cliente que fala baixo, lento e com voz macia. Eu mesmo já tive vários problemas por falar demais com pessoas que falam pouco e por não deixar outros falarem – Amigos, paciência! Estou trabalhando nisso. Quanto mais a sua voz for assemelhada com a de seu interlocutor, maior é a possibilidade de ele compreendê-lo, pois é assim que ele gosta e se sente confortável para se comunicar com o mundo.
3- Emoções – Quanto mais rápido o vendedor acompanhar e espelhar a emoção do cliente, mais rapidamente ele conquistará a confiança dele. Afinal, o cliente se sentirá compreendido, acolhido e valorizado por aquele semelhante. Assim, se você falar de modo muito calmo com alguém muito agitado, ou vice-versa, terá sérios problemas, pois o outro achará que você está indiferente ao seu estado emocional. Elevar ou diminuir seu estado emocional através de sua voz, postura e gestos, é o mesmo que dizer: “Sei como você está sentindo. Também sinto isso!”. O cliente quer ouvir isso.
Lidar com emoções é como convidar alguém para uma dança. Se a pessoa está dançando rock na pista e você quer dançar música lenta, não vai adiantar você forçá-la a dançar lentamente. A melhor coisa a se fazer é acompanhá-la na dança, assemelhando tom, ritmo e altura da voz. Ao acompanhar sua linguagem não verbal, você descobrirá ao fazer pequenos movimentos que a pessoa te acompanhará inconscientemente. Afinal, ela agora confia em você e também quer dançar seu ritmo. Você agora pode conduzi-la para um ritmo de dança mais lento, ou seja, um estado mais calmo.
4- Afirmações óbvias (Truísmo) – Faça perguntas ou afirmações com as quais a grande a maioria concorda. Por exemplo: “Você concorda que o maior patrimônio em sua casa são seus filhos? Você espera que ao tocar um alarme, alguém chegue rapidamente aqui, certo?”. Quando você consegue concordâncias seguidas de seus clientes, consegue também sua simpatia, atenção e confiança. Por que o elogio sincero é bem vindo? Porque é uma afirmação considerada inquestionável para quem o ouve. Vamos explorar mais os elogios sinceros! Repito… SINCEROS!
5- Reforçar a comunicação – Sempre que estiver conversando com alguém, repita o que ele falou para ter certeza de que você o está ouvindo atentamente e se interessa em saber o que ele quer dizer. Diga: “Se eu entendi bem, você deseja…”. “Se eu ouvi bem, você não quer…”. Uma atenção especial deve ser dada às objeções e opiniões diferentes em relação a um determinado assunto. Quando você confronta uma idéia, você pode até ganhar a discussão, mas perderá a venda e, principalmente, uma amizade. As pessoas se agarram às suas opiniões, fincam posições e se preparam para guerra quando são confrontadas diretamente. A idéia é concordar com o ponto de vista do cliente e depois levá-lo a contemplar seu ponto de vista, sua idéia ou sua solução.
Enfim, tente se assemelhar mais às pessoas, pois estará reconhecendo-as, compreendendo-as, respeitando-as e, principalmente, conquistando sua confiança, admiração e amizade. Por que ser mais um estranho chamando os outros de estranhos e achando tudo estranho? Somos apenas diferentes! Ao escrever esse artigo, construí metade de uma ponte. Quero que você construa a outra metade e que essa ponte seja duradoura para podermos caminhar sempre que quisermos conhecer o mundo do outro e nos tornarmos menos estranhos nesse novo mundo. Vamos juntos espelhar um mundo mais feliz.
Por favor, não me estranhe!
07/12/2011
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Marcos Antonio de Sousa, graduado em Engenharia Eletrônica e MBA em Administração de Marketing pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Especialista em vários cursos nacionais e internacionais de vendas. Practitioner em PNL (Programação NeuroLinguística). Realiza conferências e palestras sobre Vendas, PNL e Motivação. Consultor da Associação Brasileira das Empresas de Sistemas Eletrônicos de Segurança (ABESE). Conferencista em eventos realizados pela FENAVIST (Federação Nacional das Empresas de Segurança e Transporte de Valores). Colunista da Associação Brasileira de Profissionais de Segurança (ABSEG). Palestrante nos principais congressos, simpósios e eventos de segurança privada do país. Articulista em diversas revistas e jornais do Brasil. Autor dos livros: Vendendo Segurança com SEGURANÇA e CONFIDENCIAL – Coletânea de Artigos Sobre Segurança.